
Mgmt é mórbido e antigo. Parece que tem algo errado em sentir isso de vozes tão jovens. Mas somos nós lá: a geração bonita e branquinha criada a ovomaltine e tv, fascinada por simulacros simplificados da vida (desenhos, jogos de videogame), recém-saída da universidade pra agora obrigatória vida adulta, tendo transformado toda aquela revolta ingênua adolescente que encontrava acalento num sonho de socialismo engolfado em drogas, em mais drogas do que socialismo. Todo o ódio que move montanhas virou ironia apática de gabinete, que faz a inação parecer muito inteligente.
É lindo. Você continua lá, acordando todo dia, escovando os dentes, enfiando dinheiro no cu da Coca-Cola, mentindo pra mamãe que tá realizando o sonho kitsch dela, não indo a pé nem pra esquina, reclamando e amaldiçoando todo o mundo porque alguém fez cara feia pra você hoje ou porque tá calor, sedimentando a convivência com as mesmas pessoas pra ouvir sempre o mesmo delas (ou seja, não ouvir), morrendo em vida. Marasmo, alienação, alheiamento profissional (porque da própria vida, dos próprios fins, do próprio tempo – esforço até que grande demais). Mas pra te salvar, a pieguice de dizer que sim, claro, você queria um mundo melhor mas nem o imagina na razão prática. Pra pegar bem em público, quem ia admitir a mais profunda indiferença diária prum grito de socorro ao lado, clamando por necessidades básicas? Ou melhor ainda, a ironia. Você zomba dessa necessidade, você zomba do merecimento dos outros quanto aos seus privilégios – como se uma merda de deus fosse (ou como se o demiúrgico inorgânico fosse) – engloba tudo com um argumento de autoridade e... muito bem, parabéns. Tapinhas nas costas e mundo adulto pela porta da frente.
Um pouco dessa porcaria toda no Mgmt. Um passadismo pra forjar a profundidade. O experimentalismo e a tranquilidade pra falar de morte e automatização sentimental. “Congratulations”, a canção, é simplesmente horrorosa com suas banalizações mórbidas, distantes, inteligentes, descrentes. O mormaço igual a marasmo: a naturalização de um tédio diante do grande e único evento não-vida em vida. Os reflexos ameaçadores ou a paz profunda diante da ideia de que parece que nunca seremos (ou mereceremos ser) felizes – o disse Mishima em dois momentos de Confissões de uma máscara.
It’s working: aprofunde-se na fenda que separa o corpo do resto. Funciona no seu sangue, mas sangue não é mente, amor não é sangue, amor não é mente. Mas quando it feels like someone’s missing, trai-se todo esse pensamento, haha. (É verdade, eles devem pensar assim por não ter saudade palavra).
A canção instrumental é a mais clara: noite e uma casa acesa no meio do nada, gritos de você sabe o que que nunca tem nome, os reflexos ameaçadores porque indefiníveis ou porque travestidos daquele medo que você nunca consegui (ops, ato falho, vou preservar) nomear.
Tudo isso já morava no primeiro disco, mas o tom pop e os sintetizadores suavizavam: é chique e hype tratar a vida como um irônico descarte de pessoas, como uma estúpida infância. Mas agora já tá começando a doer. Um mal-estar estranho, que não tem como, não tem por onde, mau agouro 24 horas.
Bem já preveu Mishima mesmo, quando da americanização japonesa: o resultado é o mais belo laconismo. Laconismo feito Deus, feito religião, feito fatalidade.
Sou uma maldita neoromântica preconceituosa que trata todos os eventos da própria vida como os mais importantes dessa vida. Um dito excessivo e desnecessário envolvimento com coisas que nada, na verdade. Essa é minha involução, meu defeito, meu ponto fraco, vou gastar ele até. Por isso, esses homens irônicos não me ligam. Só me fazem dançar.
Desculpe, desculpe, mas eu tenho que falaaar. Esse blog é incrível, eu falo o que quiser, realmente (o que eu quiser, uhu!!). Cheia de coragem (pela internet). Me enforcando na corda da liberdade. Claro, prova na quarta-feira e eu aqui. Nomeando os demônios, pelo menos.
Não, nossa geração não tinha que ser melhor. Não importa o que fizesse, teria erros. Mas meu ódio é minha resistência! É o que tem pra hoje, nenhuma elegância. Ainda não sou madura o suficiente pra abdicar. Quando for, aviso. (e agradeçam por ele estar aqui e começar rarear na existência ao vivo)

é um jeito todo particular de se escrever, escrever para pouco ser lido é doloroso...
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